A mesa estava milimetricamente arrumada. Não de uma forma conservadora ou que prezasse por uma simetria exagerada: era despojada e trazia um ar descontraído, como se a anfitriã não tivesse pensado e repensado onde colocar cada objeto sobre ela (por mais que ela o tivesse feito).
Um detalhe importante é o de que a mesa era também obra de seu próprio trabalho e destreza manual. Usando de umas madeiras que outrora eram porta de um armário, e que para muitos não teria a menor utilidade, ela fez sozinha (ou com a mínima ajuda possível de terceiros) aquela mesa.
Uma obra prima que contava com pequenas imperfeições aqui e acolá, fato esse que a tornava deveras única e especial. Imperfeições seria o nome que um leigo fordista daria ao que de fato é poesia pura; algo que tornava aquela estrutura além de única: cheia de alma.
Era também um certificado vivo da sua força e autossuficiência; que por si só já passava uma mensagem clara ao convidado que estava a chegar.
O resto do cômodo estava praticamente vazio. Ainda não tivera tempo de fazer sua mudança definitiva. Ou talvez estivesse protelando ao máximo mudar pro apartamento onde moraria só, depois de tantos anos acostumada com o barulho característico que as famílias produzem quase que ininterruptamente.
Umas almofadas bonitas, que fora presente de sua mãe, foram colocadas no chão com certo ar desconstruído e despojado que sua geração aprendeu a exaltar.
As cadeiras... ela também as montou, depois de comprar na internet e esperar calmamente com que elas chegassem.
Os planos de como cada cantinho ficará já está na sua cabeça e parte deles em alguns desenhos que ela esboçou com esmero.
Porém, ela não tem pressa; ou ao menos não a demonstra.
Cada canto vai se criando no seu próprio ritmo; por mais que convenhamos que, as vezes, esse o seja lento demais.
Talvez esse cômodo reflita bem o conflito que ela sente em relação ao mundo. Uma batalha sutil entre o seu apreço pelo inesperado, a aventura, o visceral, a paixão; e os seus planos tão cuidadosamente forjados e que em alguns breves momentos urgem em seu peito.
Ela já não tem mais 20 anos. E muito menos está perto dos 40. Ela habita aquele limbo temporal onde ainda se é muito jovem pra ser velha e ao mesmo tempo velha demais pra ser jovem (parafraseando a antiga Sandy Ejunior, agora órfã do seu sobrenome).
O menu do jantar tinha sido pensado pra agradar ao convidado, mas também para se encaixar nos desejos dela de prezar pela saúde e pela boa experiência culinária.
Comprara cada um dos ingredientes, os cortou, preparou, cozinhou e decorou sobre a mesa.
E não fora só do ambiente que ela cuidara.
Foram longos os minutos em que ela pensou em qual seria a melhor roupa para a ocasião. Queria se manter longe de uma aparência séria ou formal demais, contudo também queria um tom menos cotidiano, afinal queria deixar claro que esse não era um dia qualquer, era mais do que só mais um encontro.
Acabou por se vestir com o mesmo ar angelical e jovial que é quase a sua marca. Uma jovem com seus vestidos leves, coloridos e floridos, complementados pelo seu sorriso encantador e um ar intelectual sempre presente. Porém, decidiu por ousar nos acessórios e na maquiagem. Nada exagerado, mas algo que denotasse como aquele dia era especial.
Já estava quase tudo pronto e sua pauta mental sobre o motivo daquele jantar também já estava estipulada e, obviamente, ia muito além de uma simples refeição.
Tinha tanto a ser falado...
Tanto a ser decidido...
E mais do que isso: tinha tanta coisa que ela desejava desesperadamente ouvir.
Photo by Stefan Draschan
