Boa noite, boa tarde ou bom dia...
Não tô muito bem não e me desculpa pela demora pra responder e me pronunciar. Agradeço a todas as mensagens de carinho e apoio que recebi e espero responde-las com calma quando eu melhorar.
Na verdade estou mal de um jeito que nem sei se já fiquei antes.
Tentando achar sanidade pra ver alguma luz no fim do túnel.
Hoje a eles me dispensaram formalmente...
Não fui eu quem saí; eles me tiraram.
Talvez eu não tenha feito o bastante pra alcançar o nível exigido pela escola e talvez eu não me alinhe mesmo aos ideais da instituição, não sei ainda o que pensar disso, mas de coração eu me esforcei e botei meu coração em cada palavra e atividade que eu fiz.
A pandemia está sendo pesada para todos nós, mas penso ter me empenhando em tentar produzir um conteúdo bom, humano e que garantisse a qualidade pra vocês sem pesar tanto; tentando ser leve, divertido e buscando novas ferramentas e narrativas . Ou ao menos eu me esforcei pra tentar entregar isso a vocês.
As noites mal dormidas vendo tutorias de como tentar melhorar o som dos vídeos, as horas e mais horas editando, gravando, escrevendo e me esforçando até literalmente sucumbir de exaustão Física... tudo isso continua valendo a pena pelos momentos de aprendizagem, respeito e carinho que tivemos.
Nesse momento são muitas as minhas preocupações: a quarentena, os problemas financeiros que virão em breve com o meu desemprego, a saudade da minha família, a minha saúde debilitada pela falta de descanso e tempo pra me alimentar direito nos últimos meses, a minha cicatriz da cirurgia do apendicite que ainda sequer sarou direito... Os pesadelos com os prazos que eu tinha que cumprir ainda ecoam e minha mente ainda não os fez ir embora. Talvez eu não tenha sido forte o suficiente pra aguentar o tranco de ser professor, sozinho em São Paulo, em meio ao caos do Covid...
Ao menos, espero que saibam que o dinheiro que eu gastei pra comprar um microfone de lapela, pra tentar arrumar meu computador, pra comprar a licença do programa de edição, pra tentar melhorar meu zoom, todas as vezes que passei a internet do meu próprio celular porque a da pensão onde moro não estava funcionando, a tentativa de improvisar um fundo para os vídeos, os cursos que busquei pra tentar entender como avaliar na quarentena e como amparar os jovens fragilizados pela pandemia, como usar simuladores para gerar aprendizagem significativa, como fazer atividades que incorporassem os elementos que vocês têm em casa... espero que saibam que tudo isso continua valendo a pena por causa de vocês.
Peço desculpas por qualquer coisa e por talvez não ter feito o bastante.
Peço que sempre continuem sendo esses jovens adultos incríveis e especiais e que nunca se esqueçam que vocês podem chegar aonde quiserem e que ninguém é obrigado a ser bom em tudo e que tá ok ficar mal um dia, ter problemas, errar e tropeçar.
Que jamais deixem ninguém fazer vocês se sentirem pequenos e que me ensinaram muito nesse tempo que passamos juntos.
Sei que muitos não entendiam os textos longos, as atividades na frente do espelho ou gravando vídeos medindo a velocidade de vocês
... mas saibam que tinha um motivo pedagógico por trás de cada escolha: o ENEM é cheio de longos textos e questões com vários passos, a Fuvest demanda um raciocínio lógico complexo e de criatividade argumentativa e mais do que tudo isso a vida e os tempos modernos pedem mais amor e mais cuidado.
Sei que as vezes posso não ter escolhido a melhor palavra na hora de responder uma dúvida ou que posso ter falhado, mas que isso permita a vocês entender que o importante no fim das contas é sempre se esforçar em reparar os erros e que não tem problema pedir desculpas e tentar fazer melhor da próxima vez.
Sei que sempre escolhi me posicionar, lutar pela liberdade, pelo debate, pelo amparo e pela coletividade. E disso também não me arrependo.
Não me arrependo de lutar pelo que eu acredito ser certo, por sempre tentar proteger aqueles que nem sempre podem se proteger sozinhos e espero que o meu amor pela docência tenha ecoado em vocês para que possam procurar suas próprias paixões e propósitos de vida.
Era meu papel dar bronca, ajudar a formularem os argumentos e as vezes também a mostrar as falhas por trás dos quereres e das certezas que as vezes tinham.
No fundo nada sabemos, segundo algum velhinho da filosofia aí e quem sou eu pra discordar dele; mas, se tem uma coisa que eu sei é que a aprendizagem vem ora com o não, ora com um sorriso, ora com um bando de fórmulas e frases pra ajudar a decorar... e que professores são só outros seres humanos tentando sobreviver nesse mundo às vezes caótico.
E pra deixar bem claro, não estou julgando as escolhas da escola e nem quero fazer nenhum juízo de valor sobre ela ou qualquer membro da instituição e que qualquer divergência de opiniões será expressado no lugar apropriado pra isso.
Só queria me despedir, dizer de novo que se precisarem podem sempre contar comigo e dizer que vos amo: e esses são os único intuitos dessa mensagem e espero que eu consiga alcança-lo.
Aos meus alunos, todos eles de todo e qualquer lugar.