segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Amor Calefação

Acordei focado.

Iria pra academia em busca do tão sonhado corpo torneado.
Não que eu me importe muito com isso, só que dizer que não me importo em nada também é mentir descaradamente.

Tinha marcado de te encontrar; algo rápido, visceral, carnal, público e sem muita conexão.
Mas, lá vem a vida com toda a sua pompa e espírito brincalhão.

Demorei pra chegar; mas quando cheguei me deparei com muito mais que um corpo belo: um moço rapaz de sorriso farto e olhos profundos... uma imensidão de complexidades, dores, alegrias e sonhos. 🌌

No parque, à luz do luar, com o vento batendo e os olhos mais diversos a observar.

Engraçado como foi depois disso; deitado em seus braços que comecei a me apaixonar.

Acordei, no dia seguinte, com um sorriso bobo e leve - clássico de quem acabara de se deparar com formoso sentimento a palpitar e crescer.

Demorou, mas quando te reencontrei estava tremendo por dentro.

Sei que o humor parece exalar confiança; mas se pudesse ver além do exterior veria um serumaninho em pânico em frente à tão majestoso fuor.

A cada instante me permiti conhecer-te e permiti mostrar-me mais e mais. ⚘

A minha vergonha de ficar nu em frente de terceiros se esfarelou e genuinamente ouvi cada uma de suas histórias e a cada uma delas me despi mais e mais; me deixando extremamente exposto.

Os anos me calejaram e me deram a habilidade de ver, quase que em negrito, quando algo incrível e especial está acontecendo. Porém, essa mesma vida também me fez me proteger em meio aos abismos inerentes de nossa existência.

Eu ia embora em breve.

E já tinha muito de você dentro de mim.

E fiz talvez o movimento mais delicado de todos. Te levei pro centro dos meus amigos; te coloquei dentro da minha vida; te vi criando raiz e se tornando parte do nós que tanto prezo.

Jamais quis acreditar que o que senti era unilateral, mas acho que era o caminho mais fácil a seguir. Tive medo... tive pânico...

Sua complexidade entrou em choque com a minha fractal e infinita forma de ser: intenso, exato, emocional, racional...

Mesmo em meio a brincadeiras, espero que saiba que eu realmente vislumbrava , num futuro, me assentar ao seu lado.

Eu compraria quantas alianças finas o dinheiro me permitisse e construiria uma vida cheia de pimpolhos e cachorros épicos.

Mas, não sou perfeito.

Jamais tive ciúmes do seus amigos, do seu passado, dos seus antigos parceiros ou até mesmo dos que sabia que viriam após eu partir: tive inveja, mista em um vislumbre de saudade e uma pitada de indignação por não ter tido a chance de ficar mais tempo ao seu lado.

Sucumbi perante tamanha dor que se aproximava.

Não te considero perfeito e sei que a exaltação veio dos dois lados. Dois titãs tentando sobreviver e se encontrando cada um com seu Rasengan meticulosamente ensaiado. 🌋

Uma explosão. O silêncio. A chateação...

Sequer sei como seria se a calmaria tivesse regido nossos últimos instantes.

Mas, eu realmente sei que não seria nós e nem condizente com o sentimento avassalador que senti.

Uma grande amizade sempre tem conserto e da minha parte já a consertei por inteiro. Afinal, você já é um amigo, uma paixão, um crush e foi um super - mesmo que express - namorado.

Admito que acordei assustado de noite em busca dos seus abraços e ainda tenho espasmos por saber que está chateado.

Minha mente tenta me fazer crer que você não se importa (se importou) comigo e que tudo não passou de uma miragem que criei em meu próprio quintal.

Mas, sei que não é verdade... ou pode até ser: não importa.

Escolhi ver-te com meus mais belos olhos e acreditar na melhor versão de nossa história.

Espero que consiga, antes de mais nada, se manter em foco às suas metas, que consiga resolver seus problemas e que entenda que não há força capaz de destruir algo tão belo como o que aconteceu entre nós.

Ainda tenho vislumbres de nós cultivando nossa amizade, quiçá nos beijando, nos amando, crescendo, se apoiando...

Não sei ao certo qual será o futuro, mas hoje vou respeitar seu espaço e lidar com os buracos que antes tinham seu toque, figurinhas engraçadas e sua força imensa.



Art by Adam Riches


segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

O encontro - A anfitriã

A mesa estava milimetricamente arrumada. Não de uma forma conservadora ou que prezasse por uma simetria exagerada: era despojada e trazia um ar descontraído, como se a anfitriã não tivesse pensado e repensado onde colocar cada objeto sobre ela (por mais que ela o tivesse feito).

Um detalhe importante é o de que a mesa era também obra de seu próprio trabalho e destreza manual. Usando de umas madeiras que outrora eram porta de um armário, e que para muitos não teria a menor utilidade, ela fez sozinha (ou com a mínima ajuda possível de terceiros) aquela mesa. 

Uma obra prima que contava com pequenas imperfeições aqui e acolá, fato esse que a tornava deveras única e especial. Imperfeições seria o nome que um leigo fordista daria ao que de fato é poesia pura; algo que tornava aquela estrutura além de única: cheia de alma. 

Era também um certificado vivo da sua força e autossuficiência; que por si só já passava uma mensagem clara ao convidado que estava a chegar. 

O resto do cômodo estava praticamente vazio. Ainda não tivera tempo de fazer sua mudança definitiva. Ou talvez estivesse protelando ao máximo mudar pro apartamento onde moraria só, depois de tantos anos acostumada com o barulho característico que as famílias produzem quase que ininterruptamente. 

Umas almofadas bonitas, que fora presente de sua mãe, foram colocadas no chão com certo ar desconstruído e despojado que sua geração aprendeu a exaltar. 

As cadeiras... ela também as montou, depois de comprar na internet e esperar calmamente com que elas chegassem. 

Os planos de como cada cantinho ficará já está na sua cabeça e parte deles em alguns desenhos que ela esboçou com esmero. 

Porém, ela não tem pressa; ou ao menos não a demonstra. 

Cada canto vai se criando no seu próprio ritmo; por mais que convenhamos que, as vezes, esse o seja lento demais. 

Talvez esse cômodo reflita bem o conflito que ela sente em relação ao mundo. Uma batalha sutil entre o seu apreço pelo inesperado, a aventura, o visceral, a paixão; e os seus planos tão cuidadosamente forjados e que em alguns breves momentos urgem em seu peito. 

Ela já não tem mais 20 anos. E muito menos está perto dos 40. Ela habita aquele limbo temporal onde ainda se é muito jovem pra ser velha e ao mesmo tempo velha demais pra ser jovem (parafraseando a antiga Sandy Ejunior, agora órfã do seu sobrenome).

O menu do jantar tinha sido pensado pra agradar ao convidado, mas também para se encaixar nos desejos dela de prezar pela saúde e pela boa experiência culinária. 

Comprara cada um dos ingredientes, os cortou, preparou, cozinhou e decorou sobre a mesa. 

E não fora só do ambiente que ela cuidara.

Foram longos os minutos em que ela pensou em qual seria a melhor roupa para a ocasião. Queria se manter longe de uma aparência séria ou formal demais, contudo também queria um tom menos cotidiano, afinal queria deixar claro que esse não era um dia qualquer, era mais do que só mais um encontro. 

Acabou por se vestir com o mesmo ar angelical e jovial que é quase a sua marca. Uma jovem com seus vestidos leves, coloridos e floridos, complementados pelo seu sorriso encantador e um ar intelectual sempre presente. Porém, decidiu por ousar nos acessórios e na maquiagem. Nada exagerado, mas algo que denotasse como aquele dia era especial.

Já estava quase tudo pronto e sua pauta mental sobre o motivo daquele jantar também já estava estipulada e, obviamente, ia muito além de uma simples refeição. 

Tinha tanto a ser falado...
Tanto a ser decidido... 
E mais do que isso: tinha tanta coisa que ela desejava desesperadamente ouvir.





Photo by Stefan Draschan