admito que já tive muito medo de sofrer.
tive medo da dor, da solidão, da finitude e até mesmo da
escuridão.
porém, há muito já aprendi a viver com tudo isso.
aprendi a sentir cada uma das minhas lágrimas e a não mais lutar
contra quando elas precisarem sair.
a deixar o vazio tomar conta de tudo ; pra logo em seguida a
vastidão silenciar qualquer sorriso que ouse tentar voltar .
me acostumei com as crises que me paralisam e com os dias
que me rasgam a carne.
calejei-me.
deixei pra trás o romantismo que já me fez crer no para
sempre e no abraço capaz de curar todas
as dores.
porém, não consigo estar pronto pra perder um sorriso;
um que antes estava
ao alcance dos meus lábios e que se desmanchou no mais rápido dos dizeres.
como aguentar o peso do silêncio de onde antes jorrava as
mais belas e relevantes sentenças?
queria entender como posso dormir sendo o jovem da primeira
fileira e acordar sendo mais um ou pior:
Ninguém.
antes lindo, agora o causador dos maiores tremores naquilo que
tentei do lado estar.
o meu toque que antes acalmava, agora por si só tortura,
queima e desmancha.
parece que todo e qualquer momento caiu no lugar mais
íngreme que eu nem sabia que existia em mim.
um quê de fantasia banal naquilo que tanto me era real. Fantasia
que corroê os passos e des-saboreia os sonhos que possam vir a surgir.
e caio...
instante a instante dentro do sentir de algo que já não me é
mais nem ao menos dado, pensado, cogitado.
a distância de todo um universo não seria maior do que a que
se criou entre nossos passos.
e eu nem sequer percebi que o tempo todo estive
andando descalço.
queria que um súbito me acordasse e que meus sonhos que
agora finalmente são tão calmos e lindos, não fossem pesadelos ao serem tão
dissonantes dos fatos.
pior que doer é levantar e se esquecer da dor;
acreditar por um segundo que está tudo bem;
pra sem tempo de se preparar,
ser arrematado dele
e ter que dar a notícia pra mim mesmo de que nele não há mais nem sequer um pedaço
meu.
Photo by Agnes Cecile
